Se câmeras, filmes, sensores digitais, lentes, bolsas, flashes fossem capazes de trazer a tona os sorrisos fartos, as piadas, o choro, os medos...
Se pudessem contar as intermináveis historias ao longo dos 50 anos dedicados ao incessante movimento do abrir e fechar de cortinas, que diariamente registraram o espetáculo da vida. Com suas comedias e dramas...
Se nos revelassem como foram feitos os irresistíveis flagrantes...
Amigo Dorico a convivência diária fará muita falta...
Dorico da Silva, lendário fotografo da Folha de Londrina que depois de 40 dedicados a profissão se aposentou em 23 de abril 2007
Terça-feira, 19 hs. Acompanho o trabalho do Choque. A expectativa de algum flagrante diminui, pois a forte chuva parece durar a noite toda. Em dias chuvosos ou muito frios o número de crimes cai pela metade. Porém, meia hora depois de nossa saída do quartel, a chuva perde intensidade e cinco minutos depois cessa completamente. Não passam quinze minutos e a tranquilidade do rádio é quebrada.
O comandante da viatura decide fazer uma ronda pelo União da Vitória. Logo na chegada, um grupo de adolescentes é abordado, nada é encontrado. Depois de mais duas abordagens e alguns quilômetros rodados, os homens do choque avistam um bar. Uns quinze homens tomam cerveja, jogam bilhar, outros apenas conversam.
Tudo parece normal. Porém, em questão de segundos, os homens percebem que um rapaz de camisa amarela ''circuita'' (tem uma reação de medo, de quem está tentando escapar). No mesmo momento os policiais descem da viatura e mandam todos colocarem as mãos na parede. O jovem da camisa amarela não obedece o comando e tenta sair do bar, como se não tivesse escutado.
Uma nova ordem é dada, não vendo possibilidade de fuga, o rapaz retorna. Na entrada do bar, antes de colocar as mãos na parede, ele tira um revólver calibre 38 de baixo da camisa e o joga no chão do estabelecimento. É preso em flagrante.
Quase 21 horas. O jovem é trancafiado no camburão e a viatura segue para a 10º Subdivisão Policial. Logo, é dada a largada para a maratona da burocracia. Mas a previsão é otimista: não há ninguém na frente com outra ocorrência.
Nesse caso, por se tratar de uma prisão em flagrante, é necessário que os policias preencham três documentos. São eles o B.O. (Boletim de Ocorrência), I.E ( Identificação de Envolvido) e, finalmente, a I.A.F (Identificação de Arma de Fogo).
Os policiais dividem-se nas tarefas, cada um preenche um documento. Afinal, são muitos roubos de carro e moto na noite de terça-feira, e os policiais não podem perder o restante do plantão. Documentos preenchidos, falta agora o escrivão ouvir o acusado e os policiais. A maratona chega ao fim.
Antes de acionar o motor da viatura, o rádio já alerta. Um carro modelo Corolla, cor preta, é roubado. Os policiais decidem fazer as buscas na Zona Norte. Vinte minutos de busca, nada é encontrado.
Nesse instante, mais um chamado do Copom, um carro modelo Golf, cor prata, acaba de ser roubado na Zona Sul. As vítimas foram obrigadas a descer do carro, os criminosos estavam armados. Foram necessários apenas cinco minutos para que a viatura cruzasse a cidade, as buscas sendo executadas em alta velocidade. Só assim seria possível flagrar os bandidos ''desovando'' o veículo.
Em pouco mais de dez minutos foram percorridos os principais pontos de ''desova'', mas nada é encontrado. Os policiais decidem buscar num lugar mais isolado, região com poucas casas, muito mato, e quase nenhuma iluminação pública. Nesse momento, a viatura anda devagar. Com ajuda de uma lanterna, observam o matagal.
Mais à frente, em uma estreita rua de terra, com declive acentuado, já tomada pelo mato, nenhuma casa. O comandante da viatura decide entrar. Quando a viatura começa a descer, avistam, com ajuda da luz dos faróis, o Golf. Meia hora depois do roubo. Mais um vez recomeça a maratona...
breve mais fotos da matéria...
:: SÉRGIO RANALLI 11:04 AM [+] ::
...