A guerra era eminente, faltavam horas, talvez minutos, quando tive que fazer uma pequena viagem de volta para casa. Tinha a certeza que quando chegasse os primeiros mísseis estariam caindo sobre combalida Bagda. Não estava errado, ao ligar a televisão minha suspeita se confirmou, uma camera filmava Bagda do alto de um prédio, as rajadas das baterias antiaéreas riscavam o céu, as sirenes alertavam a população do perigo, poucos mísseis lançados, muito aquém daquilo propalado pelos Estados Unidos.
Saber o que, na realidade, estava acontecendo era o que queria, comecei a mudar de canal, todos diziam mesma coisa, ou seja, nada. Insatisfeito com a cobertura televisiva, entrei na internet, comecei acessando os site de noticias brasileiros, novamente fui surpreendido pela falta de informações concretas. Restava ainda os sites internacionais, mas o cenário era mesmo, as (des)informações as mesmas, as imagens iguais. Naquela prematura cobertura do ataque a pasteurização das noticias começava a me inquietar, na televisão o pânico na cara dos apresentadores era visível, pois eles pareciam ter a mesmas informações que eu, nenhuma.
Não há nada pior para o jornalismo que a falta de informações, mas esse panorama numa guerra com cobertura em tempo real pelos meios eletrónicos de comunicação é ainda mais grave, visto que ausência de fontes verossímeis esbarra fatalmente na proliferação de achismos, todos acreditam saber a estratégia usada pelo governo americano, todos acreditam saber a reação de Saddam Hussein, todos já discutem o pós guerra, a nova ordem mundial, a destino das Nações Unidas, do povo iraquiano, como espectador me indago se estou diante de uma cobertura jornalística ou de aula de futurologia, na qual os professores sofismam afim criar algo que eles não possuem, informações concretas.
Depois de cinco meses e três dias morando na estante da minha sala, meu peixinho betta morreu. Estou triste.
Todas as manhas, quando ia alimenta-lo, pensava em fazer algumas fotos, mas acabava deixando para o dia seguinte, talvez, mesmo que inconscientemente, como forma de retardar sua morte.
Mas hoje, pela manhã, ele não queria comer, não queria nadar, estava sem brilho, nem cor, boiando em seu pequeno aquário. As fotos já não poderiam ser deixadas para amanhã, mas hoje, não há mais vida, não há mais fotos, só há um corpo fotografado como um grito de não deixar as coisas para amanhã!
Hoje é o ultimo dia que Fora de Foco estará no Blogs Of Note, quero aproveitar para agradecer aos responsáveis por essa seleção, a todos visitaram o Fora de Foco, e principalmente aqueles que deixaram comentários e enviaram e-mails, eles foram muito importantes, deram um grande estimulo e me deixaram muito feliz.
Nunca consegui definir esses sentimentos, talvez por nunca ter me sentido absolutamente só por um longo período , ou por ainda não ter perdido aquelas pessoas que estão mais próximas, pelas quais sinto aquilo resolvemos chamar de amor...
Cheguei a acreditar que só um tempo relativamente longo poderia despertar esses sentimentos, mas vida, como sempre, resolve sussurrar no meu ouvido que estou enganado. Anos, meses, dias??? Não, apenas poucas horas longe dela foram suficientes para despertar aquilo que não consigo definir.....
"Tem dias que a gente se sente
Como quem partiu ou morreu"
Antes de escrever este post, tentava encontrar no arquivo alguma imagem que pudesse representar meu atual estado espirito...