Com um sorriso farto e os olhos brilhando, um garoto segura uma velha câmera fotográfica, diverte-se fingindo registrar os jornalistas recém-desembarcados na Praça Champ de Mars. Não há filme na máquina, mas isso não parece preocupá-lo. O terremoto o fez aprender desde cedo que bastam alguns segundos para ceifar milhares de vidas e arrasar todos os bens que a família possuía. As fotos serão reveladas e guardadas na memória, único lugar inatingível pela fúria do instável subsolo haitiano.
A praça fica em frente ao Palácio Nacional, destruído pelo terremoto, ocorrido em 12 de janeiro. O número de mortos pode chegar a 300 mil. Símbolo da tragédia, tornou-se um campo com 50 mil desabrigados que vivem em barracas, umas de material impermeável outras feitas apenas com pedaços de tecido. Falta tudo: banheiros, cozinha, comida, água, energia, numa lista infindável de gêneros de primeira necessidade. As pessoas tomam banho entre as barracas, ou no meio da rua. A comida, quando há, é preparada em qualquer canto.
O cenário é de caos e horror, terreno fértil para o choro, para a dor, trágico suficiente para deprimir e desesperançar os sobreviventes do cismo. Mas a realidade surpreende, os sorrisos, as brincadeiras e a vaidade vão brotando entre os mosaicos multicoloridos de barracas e tecidos. Num canto, a mãe adorna o cabelo da filha mais nova com dezenas de enfeites coloridos, as poucas roupas que sobraram estão bem cuidadas e limpas. Dentro de outra barraca, um senhor ajusta com zelo o nó da gravata, mulheres improvisam um salão de beleza, cabelo, maquiagem e unhas são cuidadosamente tratados.
As crianças são o maior exemplo de superação. Qualquer pedaço de plástico e alguns gravetos se transformam numa pipa. Outros correm por entre as barracas, improvisam carrinhos, bonecas e aviões. Brincam e sorriem, reconstróem os ciclos de amizade, aprendem a viver sem os pais, sem os avós, tios, primos e amigos que morreram no cismo. Não vi uma única criança chorando, nem entre as que estavam no hospital com braços e pernas quebradas.
Nas ruas o trânsito absurdo e o comércio informal anunciam que tudo começa a voltar ao ritmo pré terremoto. A urgência da vida é estimulada pela intolerância do clima. Falta menos de um mês para o início do período de chuvas, cada núcleo familiar corre atrás de se abrigar melhor, sabem que as lonas impermeáveis resistem a água mas não suportam os ventos da temporadas de furacões que começam em julho. Todos sabem que ficar parado num letárgico estado de luto só agravará a situação. Viver para o haitiano é conseguir driblar as catástrofes e conflitos que permeiam sua história.
Na escuridão entre os escombros e a malária
Quando a luz do sol começa a rarear, Porto Príncipe vai aos poucos mergulhando num breu assustador. A capital já não contava com a distribuição regular de energia, depois do terremoto tudo piorou. Só há luz onde existem geradores à gasolina ou diesel.
Nos bairros pobres e arrasados pelo sismo a escuridão só é rompida pela escassa luz de velas. As ruas são tomadas por barracas. Mesmo as casas que resistiram ao tremor continuam desabitadas. O medo de um novo terremoto transformou as vielas nos lugares mais seguros. Quem não tem barraca, colchão ou mesmo travesseiro, dorme no chão entre pilhas de escombros. Desprotegidos e desabrigados, cercados de lixo e esgoto, os habitantes das zonas mais pobres vão se tornando alvo fácil para a malária que avança mortal e silenciosamente.
Apesar das estimativas darem conta que existam mais de 50 mil corpos ainda sob os escombros, o cheiro de morte não é mais sentido. Uma poeira densa e o cheiro de lixo completam a paisagem lúgubre. Mas não há choro, gritos, nem desespero. As crianças continuam brincando, uma senhora prepara uma massa, aproveita a luz das brasas para não errar as medidas.
Em meio à escuridão, os soldados brasileiros criaram um novo método de distribuir comida sem causar tumulto ou violência. Conhecedores das comunidades onde atuam, sabem os locais onde a necessidade é mais urgente. No meio da noite, entram nos acampamentos, vão acordando os moradores e entregando cestas básicas. Assim não há tempo para formar as perigosas aglomerações. As operações, batizadas de ''Papai Noel'', se mostraram eficientes e começam a ser adotadas pelos militares de outros países.
Dor, cirurgias e esperança
Com os olhos arregalados, numa mistura de susto com tristeza, uma garotinha sem nome. A única companhia é um bonequinho azul. Com um ano de idade e pesando apenas cinco quilos, num quadro gravíssimo de desnutrição, ela foi abandonada pela mãe. Ninguém sabe quem são os pais, onde morava, quantos parentes perdeu no terremoto, enfim o tremor fez ruir as histórias e origens da pequena. Ela é mais uma das milhares de crianças que perderam tudo. Encaminhada ao Hospital de Campanha (HCamp) da Força Aérea Brasileira no Haiti por uma ONG, a garotinha tem destino incerto. Os pacientes podem permanecer no máximo por 72 horas na unidade médica.
O HCamp é um hospital de guerra, eminentemente cirúrgico, montado dentro de barracas de campanha, tem como finalidade estabilizar os pacientes e enviá-los para retaguarda. Mas no Haiti, passados os traumas mais graves após terremoto, os atendimentos clínicos e ginecológicos têm sido maioria nos últimos dias, devido ao colapso do sistema de saúde haitiano.
Mas nas enfermarias do HCamp não há só histórias trágicas, os sorrisos e a esperança surgem por todos os lados. Como a do pequeno ''Cris Love'', que nasceu faz sete dias. O nome em tradução literal ''Amor de Cristo'' foi dado pela mãe por ter resistido ao terremoto. Já nasceu encarando a morte...
Já faz dois anos, mas até hoje me recordo das primeiras palavras que ouvi quando pisei em solo haitiano:
''Mange, mange, bon bagai'' (comida, comida, sangue bom). Um pequeno e faminto morador de Porto Príncipe implorava por alimento. O país mais pobre das Américas é um retrato perfeito do caos, não há saneamento básico, o fornecimento de energia elétrica é restrito, a maioria da população não tem luz nem água encanada em suas casas, 80% das pessoas vivem abaixo da linha da pobreza o mesmo percentual estimado de desempregados.
Os índices de infectados pela AIDS e os de mortalidade infantil estão entre os mais altos do mundo. A instabilidade política, com sua historia forjada por golpes de estado e alguns presidentes mortos, dão a tonica do quadro trágico vivido pela população da antiga “Perola das Antilhas”.
Não bastasse esses dados estarrecedores, a natureza tem voltado sua fúria contra o terço ocidental da ilha
Hispaniola (Ilha divida entre Haiti e Republica Dominicana). Em 2008 tempestades e furacões deixaram mais de mil mortos e 800mil pessoas desabrigadas, a destruição fez o pequeno e combalido PIB haitiano recuar 3%. Mal começaram a reconstrução do país e um sismo com magnitude de 7,0 na escala de Richter destrói a capital Porto Principe, cidade que concentra um terço da população haitiana.
É necessário que mundo volte todos os esforços para os trabalhos de resgate e reconstrução do Haiti. É improvável que os pouco mais de 7mil militares(dentre os quais 1254 são brasileiros) das forças de Paz da Onu consigam prestar assistência aos mais de três milhões de afetados. Vale lembrar que esses homens terão muito trabalho para conter as ondas de saques que se seguiram a tragédia, bem como os princípios de rebelião de uma população faminta e emocionalmente destroçadas pelas perdas materiais e humanas.
Tente imaginar Porto Príncipe como um Rio de Janeiro as avessas, na qual a polução pobre vive a beira mar e a pequena e opulenta elite ocupam as morros. Petionville, área mais rica da capital e a priori a mais afetada, é esta localizada no alto das encostas, possui as edificações de alvenaria com maior numero de andares. Nas áreas mais pobres, concentram a maior parte das pessoas em construções com estrutura de madeira e paredes feitas com folhas de zinco. Já a região central da capital também foi gravemente a afetada, com as construções mais antigas em alvenaria. As duas edificações mas suntuosas de Porto Príncipe ruíram, o Palácio Nacional e a Catedral de Porto Príncipe. Não restam mais nem os principais símbolos de uma polução de maioria católica e muito atenta as movimentações políticas.
O Brasil que comanda desde 2004 Missão das Nações Unidas para a estabilização no Haiti ( Minustah) tem seu maior desafio que é manter uma razoável estabilidade social, evitar a aumento da violência e proliferação de gangues, num cenário de absoluta destruição material. Aliado a isso a declarada pretensão brasileira de assumir um assento permanente no Conselho de Segurança da ONU e afirmar a sua importância na geopolítica mundial, transformam o Haiti numa prova de fogo e resistência para o governo, diplomacia e Forças Armadas Brasileiras.
Texto e fotos: Sergio Ranalli (imagens feitas em abril de 2008, mais fotos e texto sobre o Haiti nesta página)
Já faz um mês que todas as noites Daniela, com apenas seis anos de idade, chora de dor no dente. A falta de escovação adequada facilitou a formação de uma enorme cárie. Seria um problema de fácil solução se a menina não fosse moradora de Floresta(distrito do município de Borba-AM), pequena comunidade com 133 habitantes isolada na barranca do Rio Madeira.
A mãe sofre com as lágrimas de Daniela, mas o sentimento de resignação parece amortecer a dor. Todos ali já passaram por isso. “Ela ia ter que ficar com a dor até o dente cair”, desabafa Simone Rodrigues. O dentista mais próximo fica a doze horas (ida e volta) de rabeta, um pequeno barco com motor e hélice traseira, utilizado em rios de baixa profundidade, muito útil e popular na Amazônia. Enfrentar as águas traiçoeiras do Madeira para extrair um dente não estava entre as prioridades da família.
É difícil de acreditar, mas essa é a realidade de seis milhões de brasileiros. Praticamente não há estradas, e quando elas existem estão em péssimo estado de conservação. Não há aeroportos nas pequenas comunidades, a única alternativa são os milhares de quilômetros de rios navegáveis da bacia amazônica. Existe ainda a batalha contra a hostilidade do clima, extremamente quente e úmido, e os perigos, dificuldades e doenças impostos pela selva. São 3,6 milhões de quilômetros quadrados, 40% do território nacional, com uma baixíssima densidade demográfica de 3,4 habitantes por quilometro quadrado. Só como comparação, a densidade demográfica de Londrina é de 291 habitantes por quilometro quadrado. A pergunta torna-se inevitável: como levar atendimento médico para a população que vive isolada no meio da selva amazônica?
A Marinha do Brasil, em parceria com o Ministério da Saúde, tenta por meio de três navios hospitais minimizar o isolamento e o sofrimento de pequenas comunidades ribeirinhas. A reportagem da FOLHA acompanhou essa saga pela vida e singrou por 1,3 mil quilômetros do Rio Madeira, saindo de Manaus-AM e chegando a Porto Velho-RO, acompanhando o atendimento médico e odontológico nos lugarejos isolados.
Embarcamos no Navio de Assistência Hospitalar Carlos Chagas. Foram 12 dias, oito comunidades atendidas, 1420 procedimentos realizados (atendimentos odontológicos, consultas médicas, pequenas cirurgias e exames), 17 horas de voo com o helicóptero da embarcação e 51 pousos a bordo.
As dimensões desse trabalho surpreendem. Em 2009, os três navios já singraram mais de 52 mil quilômetros pelos principais rios da Amazônia, distância suficiente para dar uma volta na terra com 10 mil quilômetros de sobra. Foram mais de 37 mil consultas médicas e 80 mil procedimentos odontológicos em 57mil pessoas. Os homens e mulheres da Marinha visitaram 610 comunidades e voaram mais de 125 horas nos helicópteros embarcados nos navios Oswaldo Cruz e Carlos Chagas. Mobilizaram mais de 200 profissionais da saúde, entre médicos, dentistas e farmacêuticos e consumiram 220 toneladas de remédios e insumos hospitalares.
As missões são chamadas de Asshop (operações de assistência médica, odontológica e de orientação sanitária realizadas pela Marinha do Brasil) e acontecem somente na região norte do país, nos estados do Acre, Amapá, Amazonas, Pará, Rondônia e Roraima. A Marinha divide toda a região em Pólos de Saúde. Os rios mais extensos são subdivididos em dois ou mais pólos de Saúde que podem ser atendidos pelos navios até três vezes ao ano. No entanto, a frequência de visita aos pólos depende do regime de cheias e vazantes de cada rio, de modo que haja segurança para a navegação dos navios na área.
A primeira comunidade visitada na missão acompanhada pela FOLHA foi Floresta, pertencente ao município de Borba-AM, cuja sede administrativa está distante seis horas de barco. Os 133 habitantes do lugarejo vivem em 32 casinhas coloridas de madeira. Uma pequena e mal conservada igreja, uma escola e um espécie de salão. O único meio de transporte é o barco. Não há farmácia, mercado ou qualquer outro tipo de comércio. Também não existem telefone fixo e sinal de celular. O único contato com o “mundo” é por meio da televisão que junto com os jogos de futebol consistem nos principais meios de diversão da população ribeirinha.
Os programas da telinha já despertaram o desejo de ser atriz na jovem Gabriela Almeida. “Quero filmar como eles filmam, quero ser atriz e também médica”. Mas os sonhos de “Gabi” disputam lugar com o sabor das frutas. “Aqui eu gosto das frutas no pé, do sabor da manga, do ingá, do jambo e do maracujá”. Os programas preferidos são os desenhos do pica-pau e a novela Viver a Vida, mas a maior parte do tempo da menina é dedicado às poucas e bem cuidadas bonecas.
As palavras de Gabriela são interrompidas pelo choro de Conceição Pereira, 31, quando percebe a chegada dos médicos à comunidade. Com as mãos direcionadas para o céu e as lágrimas no rosto, ela agradecia a Deus. Passara a manhã toda rezando e pedindo que o Senhor enviasse ajuda para o irmão que estava com uma grave ferida na perna. Sussurrava a palavra milagre a todo instante. O seu irmão, Ismael Pereira, 40, foi atacado por uma sanguessuga. O animal ficou grudado na perna do pescador. Os amigos, na tentativa de ajudar, jogaram álcool e atearam fogo na perna de Ismael, o bicho saiu, mas a queimadura provocada pelo álcool foi grave. A falta de atendimento e os dias de espera fizeram o quadro caminhar para uma infecção. Já não era mais possível movimentar a perna.
Com o entardecer próximo, não foi possível fazer uma evacuação aeromédica. No entanto, os médicos mostraram a gravidade do quadro clínico e solicitaram que os habitantes de Floresta levassem o pescador imediatamente para Borba. Ismael enfrentou seis horas navegando na escuridão do Madeira. Não fosse o atendimento dos médicos, ele continuaria esperando a cura espontânea. Porém, mais 24 ou 48 horas e o quadro poderia evoluir para a morte.
Rios, selva e um bocado de felicidade
Pensar que a ausência de recursos básicos de saúde, educação, transporte e comunicação faz dessas pessoas infelizes é um engano. O sorriso farto e o olhar sincero não deixam dúvidas: ali reside a felicidade. Nas dezenas de entrevistas não teve um único habitante que manifestou o desejo de trocar a vida da ribeira por qualquer capital do país. Pelo contrario, o repúdio pela ideia era imediato. A dentista da Marinha, única paranaense a bordo, nascida em Marechal Cândido Rondon (Oeste do Paraná), Maristela Nonnemacher, 29, sintetiza a relação do ribeirinho com a vida e com a felicidade: “Se eles tiverem a rede, a sombra, o peixe e estiverem juntos com a família, então estão felizes.”.
Nascido em Delícia, lugarejo de 170 habitantes pertencente ao município da Manicoré-AM, o seringueiro Smith de Oliveira Menezes Filho, 50, rodou por todas regiões do país. Mas depois de cinco anos na estrada, decidiu que não seria feliz se não sentisse todos os dias o sabor da farinha produzida em Delícia. Fez as malas, largou o emprego e hoje abre um sorriso e deixa o brilho tomar conta dos olhos quando fala que é o homem mais feliz do mundo, pois três vezes ao dia pode sentir o sabor da farinha de mandioca que ele mesmo produz.
Morador há 65 anos de Floresta, Nilson Pantoja, 67, já conheceu Manaus. “Tudo na cidade grande é bom mas não é da gente. Sem contar o perigo daqueles veículos. Aqui a gente dorme na rede e não tem perigo. O único risco é carapanã (nome dado aos mosquitos sugadores de sangue)”, desabafa Pantoja. Já Raimundo Correia, 29, morador de Vencedor, revela: “para mim a felicidade é estar junto com meus amigos, com a minha família. Nossa diversão é o futebol, as festas e as danças”.
Comandante do navio, Ricardo Guastini conhece todas as regiões do país e boa parte do mundo e corrobora com ideia de felicidade do ribeirinho. “O habitante dessa região tem a noção real de que a felicidade dele ele encontra ali. Ele consegue gerar a felicidade com o que ele encontra próximo dele, com o pouco que tem disponível. Várias fotos que vemos na comissão são de pessoas sorrindo; pessoas até certo ponto completas em si e naquilo que tem. Não vejo aqui aquela gana por coisas materiais. A gente vê efetivamente pessoas satisfeitas e por isso mesmo muito felizes”.
Dona Lucinele, a “médica” da ribeira
“Quando tinha vinte anos, uma mulher entrou em trabalho de parto e a criança nasceu em minhas mãos, cortei o cordão umbilical, ajeitei tudo e, graças a Deus, ficou tudo bem com o bebê. Depois desse rebento vieram outros, quando ia nascer uma criança eles iam me pegar em casa para fazer o parto”, conta emocionada Lucinele Caldas Pinheiro, 52, moradora de Delícia
A “médica” da comunidade nunca mais parou, já se passaram 32 anos do primeiro parto e suas mãos já colocaram no mundo 84 crianças. O último rebento fazia menos de 11 dias que nascera. “Hoje faço o parto das crianças das “crianças” que coloquei no mundo”, conta Lucinele. A fama da parteira se espalhou pela ribeira e a mulher chega a viajar duas, três horas de barco para fazer parto em comunidades vizinhas. Moradora de uma casa simples de madeira, na sala um pequeno banco e uma televisão antiga. A tinta das paredes foi consumida pelo tempo, as tábuas do assoalho demonstram a fadiga dos anos. As condições de vida servem como prova que Lucinele nunca cobrou um único centavo por seus serviços.
O dom pela saúde e pela cura persegue a parteira desde pequena, aos dez anos afirma ter consertado a primeira “desmentidura” - quando um osso é deslocado). Fazia menos de quinze dias que um rapaz viajou duas horas de “rabeta” para que Lucinele colocasse seu ombro no lugar. Bastaram alguns segundos para o ribeirinho comprovar mais essa especialidade da “médica da ribeira”.
E não para por aí. “Conheço várias qualidades de remédio. Quando tinha agente de saúde na comunidade ninguém ia nele, só vinham aqui comigo. Mas para “dar” remédio eu estagiei 14 anos. Aplico também injeção no músculo e na veia”, afirma orgulhosa.
Médico forjado pela selva
Quando garoto, Bruno de Carvalho Mancinelli, 25, gostava cuidar dos familiares que estavam doentes, controlava o horário dos remédios e mesmo sem entender os significados fazia questão de ler a bula dos medicamentos. Ele cresceu e o prazer em ajudar o próximo continuou. A Medicina se tornara único caminho profissional. Quando terminou o curso decidiu se alistar voluntariamente nas três forças, pesquisando e conversando com amigos descobriu o trabalho que navios hospitais da Marinha realizavam na Amazônia. Resolveu adiar sua especialização. Durante um ano, o oficial temporário da Marinha singrou pelos principais rios amazônicos levando um pouco de alivio a dezenas de famílias desassistidas.
No início das Asshop, descobriu que o trabalho é muito mais amplo do que imaginava.”Tinha a ideia que era só uma assistência à saúde , mas hoje eu vejo que o nosso trabalho vai além de ter um enfoque à saúde, nós fazemos também um trabalho de inclusão social de fazer com que os ribeirinhos se sintam cidadãos brasileiros”, relata Mancinelli
Conhecer a amazônia fez o médico mudar sua visão sobre o próprio país. “Quando pegamos o mapa geográfico do Brasil e olhamos a região amazônica imaginamos que toda aquela área verde é uma coisa só, hoje vejo que estava completamente equivocado, o Pará é extremamente diferente do Amazonas que é diferente do Amapá, e por aí vai.”
A experiência na ribeira forjou um profissional mais preparado para entender as peculiaridades do seu humano. “A minha parte profissional não vai ganhar o tanto quanto a minha parte pessoal, minha maneira de enxergar o paciente, minha maneira de ver o problema”, afirma o médico.
A centenas de milhas navegadas, o calor insuportável, a profusão de insetos não foram suficientes para apagar da memória o atendimento que Mancinelli fez no pólo de atendimento do Rio Juruá, o mais sinuoso do mundo e um dos mais pobres do Brasil. Uma senhora de 42 anos, com dezessete filhos, se queixa que o ciclo menstrual estava atrasado. As condições da paciente e a idade levam o medico a suspeitar do diagnóstico: seria a perimenopausa? Depois de um exame rápido, Mancinelli se surpreende com uma gestação já no quarto mês. Numa região sem nenhum recurso médico, numa idade de risco, com dezessete filhos sendo que três estavam com malária e vivendo na pobreza, passava pela cabeça do médico o choque que a notícia iria trazer para aquela família isolada. No entanto a reação da mãe ficou tatuada na memória de Mancinelli: “Ah tá, mais um filho”.
A felicidade do ribeinho também chama a atenção do médico. “No rio Juruá, ou no rio Purus, que durante a cheia a população fica meses sem nem poder sair de casa, pois está tudo alagado. A canoa é o único meio de transporte e mesmo assim vemos a felicidade estampada no rosto deles, percebemos que eles estão em paz. Resignados naquela condição e mesmo assim vivem super bem, são felizes, alegres”, se surpreende Mancinelli
Uma dentista paranaense a bordo
“A realidade da odontologia na Amazônia é a realidade da odontologia de 100, 150 anos atrás. Quando não se trabalhava prevenção e muito pouco de restauração”, desabafa a única paranaense a bordo. A dentista, Maristela Nonnemacher, 29, que nasceu em Marechal Candido Rondon e se formou odontologia na Universidade Federal do Paraná (UFPR).
A moça chegou a Manaus sozinha, sem conhecer ninguém. A adaptação ao clima e à comida foi difícil. Ela chegou a pensar em desistir, mas e teimosia fez Maristela aportar definitivamente na capital amazonense. Dois anos depois descobriu o trabalho que a Marinha do Brasil fazia na selva amazônica. Foi paixão á primeira vista. Inscreveu-se e foi selecionada para o corpo de oficiais temporários da Marinha, função que pode exercer por até oito anos, dependendo do interesse de ambos os lados. Porém está estudando para fazer o concurso e ingressar definitivamente na armada.
O trabalho com os ribeirinhos fez Nonnemacher mudar seus conceitos. “Aqui sinto que posso fazer a essência da Odontologia, não faço pelo dinheiro, faço pela essência. Para ensinar as crianças a escovarem, para tentar mudar essa realidade e sair do padrão de perda de dentes”. Os encantos e encontros com a selva fez a dentista repensar suas convicções religiosas. “Mudei até a questão da espiritualidade, antes de entrar na Marinha, de conhecer essa realidade, eu me considerava ateia. Hoje eu vejo como uma missão, como uma oportunidade de fazer o bem ao próximo. Eu recebo para isso, mas quando eu faço pelo ribeirinho não faço pelo dinheiro faço por amor”.
A convivência com a população isolada fez Maristela perceber que a relação deles com o tempo está mais condicionada aos eventos da natureza que ao relógio. Não faz o menor sentido saber as horas num lugar no qual os eventos não regidos pelo nascer e pôr do sol. Pelo momento de pescar ou colher as frutas. Pela cheia ou pela vazante dos rios. Nem os anti-inflamatórios prescritos pela dentista escaparam das garras da natureza. “Se prescrever uma medicação para o ribeirinho e falar para tomar o medicamento de seis em seis horas ele não entende o que é de seis em seis horas. Você tem de explicar que ele tem que tomar o remédio quando o sol nasce, quando ele está a pino, quando ele se põe e antes de dormir. Se não ele não toma.”
As pedras no caminho e os perigos de voar
O homem forjado para a guerra, o capitão de corveta Ricardo Lhamas Guastini, comandante do navio, decidiu ir para a Amazônia travar um combate pela vida. “Aqui temos a intenção de fazermos a diferença, vendo a situação que a população ribeirinha se encontra e podendo de alguma forma colocar um tijolinho nesse muro pela saúde deles”, revela Guastini.
No entanto para conseguir chegar até os lugarejos isolados é preciso enfrentar rios de navegação arriscada. O percurso feito pela reportagem da FOLHA é considerado o mais perigoso e traiçoeiro de toda bacia amazônica. “O Rio Madeira é o mais traiçoeiro da região amazônica pela quantidade de pedras, que são fixas. E também pela quantidade de bancos de areia que mudam de posição. No ano passado, o navio fez a navegação por determinada margem, e esse ano na mesma altura do rio o canal está diferente do que estava no ano anterior”, confirma o comandante.
A tensão no passadiço (sala de comando do navio) era constante. Os alertas do sonar indicavam profundidade de um metro abaixo da quilha da embarcação. A possibilidade de encalhar ou bater numa pedra é constante nessas situações, a velocidade é reduzida ao mínimo. As embarcações vão se ajudando via rádio, tentando encontrar o melhor caminho num labirinto submerso de pedras e bancos de areia. Durante a noite a única referência são os radares e um holofote que ilumina a margem do rio. Navega-se sem enxergar um palmo à frente. A escuridão na sala de comando só é quebrada pela luz vermelha pontuada sobre as cartas náuticas. A passagem do trecho mais temido do Madeira, o “Tira fogo”, foi comemorado nos fonogramas do navio no despertar da tripulação.
Com um helicóptero embarcado, são altos os riscos de voar numa região coberta por mata fechada, com árvores chegando a 50 metros de altura e cercado por rios. O piloto, capitão-tenente Marcelo do Rego Silva, 34, com vasta experiência no comando dos helicópteros de guerra “Lynx” a bordo de fragatas em alto mar revela as preocupações de se operar aeronaves de asa rotativa na selva. “Temos dificuldades aqui na Amazônia em função de a aeronave ser monomotor, bastante simples. Aqui os riscos são maiores, mesmo levando em conta que com os helicópteros de guerra Lynx operamos à noite, voamos a até 75 milhas do navio. Por outro lado, não temos opção de pouso. Ou é no navio ou é na água, mas se pararmos para pensar, aqui na Amazônia só temos alguns lugares de pouso nessa época na qual o rio está seco, pois quando o rio está cheio não há lugar para pouso, as árvores aqui chegam a 60 metros de altura, você vai pousar aonde?”, questiona Rego.
Foram 11 dias a bordo de um Navio da Esperança, singrando as barrentas e traiçoeiras águas do Rio Madeira. Um belo trabalho desenvolvido pela Marinha do Brasil. Agora, com meus pés em terra firme tenho minha mente tomada por esses olhares marcantes... (Em breve reportagem completa)
Esse ensaio foi realizado já faz uns três anos, eu e o jornalista e amigo Wilhan Santin acompanhamos o trabalho de alguns profissionais da área de saúde.
:: SÉRGIO RANALLI 3:24 PM [+] ::
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:: Sexta-feira, Junho 05, 2009 ::
A guerra em busca da informacão
Texto e Fotos: Sergio Ranalli
O estrondo de uma bomba estremece as paredes, as luzes se apagam, a fumaça toma conta do ambiente, os coletes e capacetes à prova de bala - negligenciados - repousam tranquilos em cima de mesas e cadeiras. Tiros de fuzil, calibre 762, são disparados às centenas do lado de fora. Para um civil, desacostumado com o uso da parafernália militar, vestir o colete e colocar o capacete no escuro, sob tensão, parece missão impossível, qualquer retardo pode ser fatal.
Demorou quatro minutos para que todos os 19 jornalistas estivessem em condições de ser evacuados para um bunker (unidade de defesa ostensiva, geralmente construído em betão); os destroços do ataque dificultavam a passagem, feridos agarravam os pés e imploravam por socorro. Já do lado de fora da edificação o cenário era de horror, mortos tinham seus membros dilacerados, os feridos buscavam ajuda em meio ao caos, os tiros continuavam, os focos de incêndio se multiplicavam, bem como o risco de sermos atingidos por novos fogos de artilharia. A morte estava mais próxima para os profissionais da informação que os 50 metros que os levariam até o bunker.
O texto acima seria trágico se não fosse apenas uma simulacão realizada no 2º Curso de Preparação para Jornalistas em Áreas de Conflito realizado pelo Exército Brasileiro, por meio do Centro de Instrução de Operações de Paz (CiOpPaz), e apoiada pela ONU, no Rio de Janeiro .
No programa, instruções sobre minas terrestres, armas de artilharia e infantaria, primeiros socorros, negociação, comportamento de reféns, progressão em terreno batido por fogos, além da troca de experiências com profissionais que já cobriram os principais conflitos da atualidade.
Exercer a profissão de jornalista é uma atividade de risco: no ano passado 41 jornalistas foram mortos no mundo e 125 permaneciam presos até dezembro de 2008. Estima-se que 33% morreram em cobertura de guerra. O restante das mortes ocorre principalmente em coberturas políticas (26,4%), reportagens sobre corrupção (20,3%) e crimes e tráfico de drogas (13,2%). A maior parte das mortes aconteceu por meio de assassinatos (72,1%), nos quais foram utilizadas armas de pequenos calibres em 53,3% dos casos.
No entanto, o leitor deve estar pensando que a má sorte dos profissionais da informação está restrita a países em guerra ou nacoes varridas por conflitos étnicos e religiosos. É estarrecedor tomar consciência que o Brasil ocupa a desconfortável 13ªposição entre os paísés nos quais jornalistas morrem no exercício da profissão, com 16 mortes, número igual a Ruanda, Serra Leoa e Tajiquistão.
Os conhecimentos obtidos nos cinco dias de treinamento servem para a guerra e cobertura jornalística de missões de paz, mas tambem permitem enfrentar os perigos diários em nosso país. É fato que no Rio de Janeiro equipes de reportagem só entram em áreas de risco com coletes à prova de bala e carros blindados. E não é para menos: é difícil encontrar jornalistas cariocas que fazem coberturas policiais que já não tenham presenciado e enfrentado tiroteios. Para quem acha exagero o curso oferecido pelo Exército, vale lembrar que até em Londrina já houvê situações parecidas, com colegas de profissão sendo alvo de armas de fogo.
Fotos e texto: Sergio Ranalli/Folha de Londrina Em breve mais fotos...
O berço das Tempestades
Uma paisagem lunar, com gelo incrustado por todos os lados, uma água esverdeada de tonalidade difícil de definir, rara aos olhares tropicais. Uns arriscam verde-garrafa outros ficam com verde-jade, no entanto a maioria fica somente perplexa. Frio, muito frio. Rajadas de vento acima de 150 quilômetros por hora transformam suportáveis dois graus negativos numa dolorosa sensação térmica de menos 27 graus Celsius. A natureza é implacável, forte e grandiosa e para aqueles que ultrajam sobrepor seu tempo ela é mortal. Está é a Antártica, o continente guardião do tempo.
Algures do interior paranaense, seu Pedro, agricultor sexagenário, deixa o sorriso farto transpor a timidez do interiorano. É melhor safra dos últimos anos. O clima ajudou, chuvas e temperatura na medida certa. Leitor assíduo da Folha, não compreende por que o jornal foi tão longe. O que seu Pedro não sabe é que os 30 milhões de quilômetros cúbicos de gelo acumulados na Antártica são tão importantes quanto o manto verde da Amazônia na manutenção das condições climáticas locais. O Paraná que o diga, está numa área de transição entre os sistemas frios que vêem do sul, as frentes frias que vem da Antártica, e os sistemas quentes que vem a Amazônia.
Em 1975, seu Pedro viu pela primeira vez lagrimas nos olhos de seu pai, um italiano de 74 anos, tão rústico quanto alto e forte. A geada que queimara os pés de café, havia transformado em cinzas os bens da família. A Antártica mostrava sua fúria, as frentes frias ali gestadas varreram o norte paranaense. "A importância da Antártica é a formação das massas de ar polar, que no inverno provocam quedas abruptas das temperaturas. Principalmente nas regiões do centro sul do estado. As massas de ar no inverno são bem mais fortes e em função disso é que provocam geadas. É importante que preservem a Antártica por que a degradação dela vai implicar em alterações numa vasta região", explica o metereologista do Simepar, Tarcizio Valentin da Costa.
Na década de cinqüenta a comunidade cientifica mundial despertava para a importância da Antártica. Um esforço de pesquisa envolvendo 67 paises durante 18 meses consecutivos, ficou conhecido como o Ano Geofísico Internacional. O sucesso da empreitada foi embrião para o nascimento, em 1959, do Tratado da Antártica, que entrou em vigor em junho de 1961, definindo o continente como "um reserva natural, dedicada à paz e a ciência". A assinatura do tratado congelou as pretensões territoriais de paises como Chile, Argentina e Austrália entre outros.
Demorou, mas em 1982 o Brasil acordou para a necessidade de possuir uma estação de pesquisa no continente, e logo em 1983 o pais foi admitido como Membro Consultivo do Tratado da Antártica. Hoje o Brasil possui a Estação Antártica Comandante Ferraz, quatro refúgios permanentes e conta ainda com o Navio de Apoio Oceanográfico Ary Rongel, que possui dois helicópteros embarcados. Em março de 2009 está prevista entrada em operação do segundo navio de apoio, o Almirante Maximiliano, comprado este ano depois que o presidente Luis Inácio Lula da Silva visitou a estação Brasileira. No orçamento de 2008 foram reservados 16mi de reais ao Programa Antártico Brasileiro - Proantar.
Ary Rongel e a travessia do Drake
Num fim de tarde, 19, avisto pela primeira vez o "Gigante Vermelho", o Navio de Apoio Oceanográfico Ary Rongel, no porto de Ushuaia na Argentina. Gigante? Atracado ao lado de um navio cargueiro Chinês parecia um nanico. Contudo não se pode subestimar a capacidade da embarcação, seus 75 metros de comprimento são capazes de deslocar 3700 toneladas.
Entre militares e cientistas, embarcam 94 pessoas, alojadas em camarotes com quatro ou seis lugares. Com dois grandes porões de carga, guindastes, laboratórios, ambulatório, consultório odontológico, academia, cozinha, refeitório e salas de estar, enfim uma micro cidade que será a casa da tripulação por seis meses. Dois helicópteros Esquilo embarcados dão mobilidade necessária ao transporte de cargas e ao apoio aos refúgios e acampamentos.
Embarcamos um dia depois do previsto, o atraso só aumentava a ansiedade. Já dentro da embarcação tentava me encontrar em meio a um labirinto de escadas estreitas e portas estanques. Os camarotes surpreenderam, não eram tão pequenos, estava preparado para algo pior. A Praça D´Armas, sala de estar e refeitório dos oficiais, é espaçosa e confortável.Uma televisão de 42 polegadas com dvd se encarrega de entreter a tripulação, os filmes se repetem, a sensação é que nunca alguém acompanha a trama por inteiro, contudo as risadas acontecem com o mesmo entusiasmo, nas mesmas cenas.
Em poucos minutos de navio uma dezena de palavras se incorporam ao vocabulário do marinheiro de primeira viagem: faina, safo, tijupá, ninho de pega, passadiço, chemaq, cheop, etc... Entretanto os silvos reproduzidos no fonograma nos fazem sentir analfabetos nessa "língua" de marinheiros, todos parecem tão iguais quanto incompreensíveis.
As horas passam, o momento de suspender se aproxima, não há outra conversa pelos corredores apertados que não seja sobre previsões metereologicas para a passagem do temido Estreito de Drake, que faz a ligação entre o continente Sul Americano e a Antártica. São quase mil quilômetros de mar aberto entre esses dois pedaços de terra. Ali ocorre a junção entre o Atlântico e o Pacifico.
Pela estreito passam as frentes frias gestadas na Antártica, uma em seguida da outra. As temperaturas são baixíssimas, os ventos ultrapassam 200 quilômetros por hora e as ondas podem chegar a vinte metros de altura. Enfrentar um mar nessas condições pode levar a cabo um gigantesco navio petroleiro. Assusta pensar o que pode acontecer com a nossa embarcação de médio porte.
Para evitar riscos a tripulação o comandante da embarcação brasileira, o Capitão de Mar e Guerra Arlindo Moreira Serrado, aguarda pequenas janelas metereologicas para iniciar a travessia. "O risco de navegar na Antártica é grande, a temperatura da agua é fatal, o tempo de sobrevivencia é de 90 segundos. A distancia das terras próximas é enorme. Aqui a segurança tem que ter prioridade acima de tudo", afirma Serrado. Homem forjado para guerra que há dois anos trava batalhas diárias no campo das ciências. Já comandou até um Navio Patrulha da Marinha Brasileira pelas traiçoeiras águas do Rio Amazonas.
No passadiço, sala de comando e observação do navio, o radio recebe previsões da Base Chilena Presidente Eduardo Frei, as informações alertam: ondas de até seis metros e rajadas de vento de 100 quilômetros por hora nos esperam, com o mar nessas condições a inclinação da embarcação pode ultrapassar 40 graus. Teoricamente 45 graus é o limite de inclinação do navio.
Andando pelo convés, me preparando para aventura, tenho meus pensamentos interrompidos pelo alerta ecoado nos fonogramas. " Tripulação preparar embarcação para o mau tempo". Dezenas de praças se encarregam de mudar as aeronaves de posição, reforçar a amarração de tudo que está no convés e convoo. O médico embarcado transita pelos corredores com bolsos repletos de remédios contra enjôo, não convém facilitar, quase todos tomam. Mas alerta, se a embarcação balançar demais não há remédio que de jeito, mantenha o estomago cheio, fique deitado.
Dezessete horas do dia 22, todos os oficiais com uniforme de gala. Numa das asas do passadiço o comandante dá as coordenadas para a mesa de operações. O navio começa a se distanciar do cais. Ushuaia vai ficando distante e o sol, raro durante toda viagem, resolve nos brindar na passagem pelo Canal de Beagle. Um oficial alerta os jornalistas embarcados: "quando for 23 horas iniciaremos a travessia do Drake, amarrem seus equipamentos e bagagens. Vocês não conseguirão ficar em pé".
O Ary Rongel atinge um velocidade de 12 nos, aproximadamente 18 quilômetros por hora. São estimadas 44 horas de travessia pelo estreito. O temor não era exclusividade dos principiantes, praças e oficiais não escondiam a preocupação e a ansiedade. Alguns com mais de 3 mil horas de submarino, centenas de dias de mar em navios de guerra. Quando o relógio marcou 22:30 todos subiram ao passadiço, como perder o momento da entrada no Drake? Agumas horas se passaram, as onda gingantes anunciadas não passaram de um metro e meio, a inclinação do navio chegou no máximo a 20 graus. Foi o Drake mais tranqüilo da atual tripulação e a maioria comemorou. Devo confessar que um pouco de aventura não faria mal.
Saudade
Em meio ao labirinto de corredores e escadas, o ruído continuo e intenso do motor é sobreposto pelo dedilhar suave de um violão. Uma voz grave inundava o ambiente com uma musica do Djavan: "Era tanta saudade. É, pra matar. Eu fiquei até doente. Eu fiquei até doente, menina. É deixa estar. Saudade mata a gente". O sargento mergulhador Nazaré cantava o que todos ali sentem. As novidades da terra gelada em pouco tempo são sublimadas pelas lembranças da família. Afinal seis meses é bastante tempo.
Contudo ele tenta disfarçar o sentimento:" minha família já está acostumada com minha ausência". Sobre a distancia dos filhos ele filosofa "filho é que nem passarinho a gente bota no ninho para um dia ele voar".
Paranaenses a bordo
Um pequeno escritório, localizado embaixo de uma das escadas do navio, com prateleiras lotadas de pastas, manuais e livros é o principal local de trabalho do curitibano César Augusto dos Santos, 32. Sargento, com 15 anos de marinha, realizou um sonho de infância. Quando completou 18 anos não teve dúvidas. Pegou suas coisas e seguiu para Paranaguá .Tinha que se alistar na Marinha. "Sempre tive vocação para o mar, sentia um desejo de navegar", fala realizado.
Nos seis meses navegando pelo continente gelado o sargento é responsável por toda tarefa burocrática da divisão de maquinas da embarcação. O trabalho é intenso. O departamento é responsável desde o funcionamento das descargas nos sanitários até o motor do navio. Orçamentos, listas de compras e solicitações ficam sob responsabilidade do paranaense, bem como as previsões de manutenções para as operações antárticas de 2009/2010. E não é só, Augusto é membro da equipe de manobra das aeronaves, auxiliando no levantamento e pouso dos helicópteros. A faina, trabalho no linguajar dos marinheiros, é puxada, contudo ninguém reclama. Servir no Ary Rongel é motivo de orgulho. A seleção é disputada e quem consegue, passa a receber o soldo em dólar durante as operações.
Já o primeiro sargento eletricista Walter Bitencourt Junior, 37, nasceu em Paranaguá e com 17 anos foi para Vitória no Espírito Santo servir na Marinha. Um veterano nas terras geladas, está realizando sua terceira operação antártica." Aqui você faz parte de uma missão de Estado, você faz parte de um Brasil maior, que constrói", define Bitencourt. Sobre as belezas do continente suas palavras são poucas, porém certeiras : "A Antártica é uma beleza azul, branca e preta".
Estação Antártica Comandante Ferraz
Há dois dias somente víamos e sentíamos a Antártica. Não tínhamos tocado nossos pés no continente. Longe do navio, sem barulho de motores e equipamentos. Percebi algo que me marcou profundamente nessa viagem, o silêncio. "É um silencio tão profundo, mas tão profundo que temos a impressão que estamos conversando com deus", define o Doutor Metry Bacila, pesquisador paranaense pioneiro nas pesquisas antárticas.
A Estação Brasileira Antártica Comandante Ferraz está localizada na Baia do Almirantado, Ilha Rei George, arquipélago das ilhas Schetlands do Sul. Nas cercanias da estação milhares de ossadas de baleia se misturam ao gelo, formações rochosas e pingüins. Essas cicatrizes da destruição da fauna marinha remontam do inicia do século XX, tempo em que o local era uma estação Britânica de caça as baleias. O cenário é tão impressionante que em 72 quando o oceanógrafo francês Jacques Cousteau visitou a Ilha Rei George fez questão montar um esqueleto completo de uma baleia-azul. O monumento foi um forma de denunciar e chamar a atenção a matança ocorrida décadas atrás. A maior atração turística das ilhas Schetlands do Sul fica a menos de 200 metros da Estação Brasileira, que foi montada ao lado do antigo e desativado ponto Britânico.
Desde 2007 a estação passa por reformas e modernizações, hoje é considerada modelo ambiental no tratamento dos resíduos. O objetivo é gerar o menor impacto possível. Durante o inverno Ferraz é habitada por até 30 pessoas - 15 militares do grupo de apoio e até 15 pesquisadores. No verão o numero sobe para 60 integrantes. Todos ficam confortavelmente alojados, academia, salas de estar, biblioteca e boa comida minimizam a distancia de casa e o trabalho árduo.
Pesquisadores elogiam a estrutura dos laboratórios, bem como as condições de apoio. Tratores, veículos especiais para neve e embarcações garantem o suporte logístico. "O pais que esta realmente pontificando na pesquisa Antártica no continente Latino Americano é o Brasil, não há dúvida nenhuma", garante o Doutor Metry Bacila.
No verão ainda recebem apoio de dois helicópteros embarcados no navio Ary Rongel. Há locais, como o refugio permanente brasileiro Emilio Goeldi, na Ilha Elefante, que só pode ser acessado por meio de aeronaves.
No comando de Ferraz está o Capitão de Fragata Carlos Alberto Machado Junior, 42. Depois de três tentativas conseguiu vir para Antártica, demonstra orgulho e preparação para chefiar 60 pessoas num ambiente de alto grau de complexidade. Machado destoa dos demais ao revelar seu maior encantamento no continente gelado: "Isso aqui é como se fosse o princípio de tudo, onde todos são solidários. Essa é a maior caracteristica dos povos aqui, todos se ajudam".
Paranaenses
O menino que nunca tinha visto o mar e não acreditava que a água era salgada, é hoje suboficial especialista em eletrônica da Marinha. Paranaense de Nova Esperança, Odair Amâncio Freire, 42, está pela segunda vez no continente, privilegio para poucos. Responsável pelos sistemas de telefonia e internet, também faz a manutenção em todos os equipamentos eletrônicos da estação.
A esposa e o filho estão no Rio de Janeiro matam a saudade por meio de centenas de fotos. Amâncio também é fotografo. Seus cliques do continente gelado já lhe renderam até prêmio, além de uma infinidade de fotos publicadas em livros e informativos da Marinha. Da terra natal, Odair sente falta da Roça, das frutas colhidas no pé. Quando vista a família se recusa ir para cidade.
O pé vermelho e primeiro sargento mergulhador, Miguel Gimenez Sofia, 46, saiu de Ibiporã com 18 anos para realizar um sonho de infância. Quando pequeno foi ao porto de Santos buscar seus avos que chegavam da Espanha. A visão daquelas dezenas de navios atracados nunca mais saiu da cabeça de Gimenez. Naquela manhã o garoto decidiu seu futuro.
Sofia é um homem de sorte e também está pela segunda vez no continente gelado. "Quando voltei para o Brasil, me bateu uma saudade da Antártica. É difícil quem vem para cá não querer voltar , eu consegui", confessa. Entre os encargos de sargento está o tratamento ambiental de resíduos e a manutenção e operação das embarcações.
Paraná: tão longe do gelo, tão perto da Antártica
A EACF ainda era um projeto e já existiam pesquisadores paranaenses envolvidos na empreitada. Poucos sabem, mas Comandante Ferraz esteve em Curitiba para conhecer trabalhos desenvolvidos pelo Centro de Biologia Marinha da Universidade Federal do Paraná. Idealizador e realizador do Programa Antártico, Ferraz saiu impressionado com o entusiasmo e produção cientifica realizada no estado. Meses depois o projeto brasileiro ensaiava os primeiros passos.
Medico por formação e cientista por paixão Doutor Metry Bacila, 86, professor emérito da Universidade Federal do Paraná e outras entidades. Com dezenas de trabalhos publicados, acompanhou de perto essa epopeia. "Montei na UFPR o Centro de Biologia Marinha, nos tínhamos uma atividade muito grande de pesquisa na área. Nessa ocasião, antes escolha do local e da construção da estação, quem esteve em Curitiba foi o Comandante Ferraz. Conversei longamente com ele", revela Bacila. O Capitão-de-Fragata Luiz Antônio de Carvalho Ferraz, o qual a estação recebe o nome, era especialista em hidrografia e oceanografia, foi um dos idealizadores do Programa Antártico Brasileiro, tamanho era seu interesse cientifico no continente gelado.
A UFPR está presente, de forma ininterrupta, desde a primeira expedição. Quando o Navio de Apoio Oceanográfico Barão de Tefé da Marinha do Brasil visitou vários pontos na Antártica para escolher o local em que foi instalada a estação brasileira. Este ano, porém, o estado perdeu a Dra Edith Fanta da UFPR, pioneira e referencia nacional e internacional em pesquisa antártica, representante do Brasil em diversos órgãos do Programa Antártico Internacional. Faleceu em maio. Foi homenageada em sessão solene do Congresso Nacional.
Dr. Bacila já esteve três vezes no continente. Na primeira vez junto com outros pesquisadores montou o laboratório de pesquisas biológicas, que foi projetado pela UFPR. “Levamos todos equipamentos necessários , instalamos tudo. Ficamos vários meses, chegamos em novembro e retornamos no fim a de março. Desenvolvemos pesquisas muito importantes” , recorda. No entanto em sua ultima viagem chegou a sobrevoar a Estação, mas uma forte nevasca impediu que o helicóptero pousasse.
Os números são expressivos, o grupo já conta com mais de 300 trabalhos científicos publicados. “Já fui convidado para ir a Itália, Correia do Sul e Japão, sempre tivemos muito aceitação e consideração pelos nossos trabalhos” , revela Metry. Contudo o pesquisador faz questão de agradecer: “a marinha brasileira merece um abraço fraternal. Não fora a parte logística deles esse programa teria sido impossível”.
A base das pesquisas paranaenses são os peixes antárticos, organismos surpreendentemente adaptados a sobrevivência em baixas temperaturas. Em cada operação antártica uma nova pergunta é respondida. Já estudamos o comportamento de peixes. O sistema visual, como os peixes procuram alimentos. Como eles exploram o ambiente com diferentes blocos de gelo no mar. Nos também fizemos estudos de conteúdo estomacal, estudos morfonológicos, adaptação das especieis de peixes em salinidades distintas. Agora, devido ao Ano Polar Internacional, nossas pesquisas estão direcionadas a alteração de temperatura , explica a professora da UFPR Dra. Lucélia Donatti, pesquisadora que assumiu os trabalhos da Dra. Edith Fanta.
Jovens cientistas
Vinte e sete anos, brincalhões, esbanjam jovialidade. Apesar da pouca idade os pesquisadores curitibanos Juliana Stierschultz e Fábio Carneiro Sterzelecki apresentam um currículo de musculatura invejável. Fazem parte do grupo da Dra Donatti. Quando nos encontramos estavam se despedindo da EACF, enfrentaram o rigoroso inverno antártico com ventos de até 250 quilômetros por hora e temperatura de 30 graus negativos.
Foram oito meses de pesquisas. O projeto está inserido no Ano Polar Internacional, a temática é o aquecimento global. “Trabalhamos com peixes antárticos de duas especies, fazemos experimentos com temperatura, salinidade e PH” , explica Carneiro.
Pescar é diversão para muita gente. Para Juliana e Fábio era trabalho sério e perigoso. Para o desenvolvimento da pesquisa a coleta dos peixes é etapa fundamental, no entanto fazer isso na antártica exige coragem. “Tivemos que abortar diversas missões, os ventos chegaram a 300 quilômetros por hora. >> Continua..
:: SÉRGIO RANALLI 6:58 PM [+] ::
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Santo Inocêncio, um mártir desconhecido dos brasileiros
Graça alcançada : Terezinha Maria, que se aposentou depois de rezar para o menino Inocêncio
Uma terra de Inocêncios
A prole, todos homens, carrega Inocêncio no nome: Bruno Inocêncio, 11 anos; Luiz Carlos Inocêncio, 10; Lucas Inocêncio, 8; e Mateus Inocêncio, 6.
O homem que acredita na lenda
A pacata e bela Tomazina, Norte do Parana
Matéria publicada na Revista Brasileiros - ed 13. Fotos Sergio Ranalli Texto Wilhan Santin
:: SÉRGIO RANALLI 5:42 PM [+] ::
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Publicado na Revista Brasileiros, edição 10. Texto do amigo Wilhan Santin.
:: SÉRGIO RANALLI 12:47 PM [+] ::
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:: Quarta-feira, Maio 07, 2008 ::
Fotos: Sergio Ranalli
Haiti
O grito,
O barulho de milhões de estômagos roncando de fome é imperceptível, a pele e osso, abafam essa dor. A escassez mundial de alimentos e por conseqüência a explosão no valor das commodities, fez o mundo parar, pensar e concluir o obvio, há fome e ela vai aumentar.
Nada pode ser mais sincero do que o olhar de uma criança. São janelas abertas que jogam o espectador num mundo de sonhos. Nem mesmo a brutal realidade vivida por esses pequenos apaga o brilho ou a esperança. Em toda viagem, deixamos pelos caminhos um pouco de nós e levamos um bocado do lugar desconhecido. O que trago do Haiti não pesa, não ocupa as mãos, não toma lugar nas malas, nem ao menos preocupa os agentes da Receita que fiscalizam a chegada dos vôos internacionais. Guardo na minha mente o olhar de cada criança que vi pelas ruas de Porto Príncipe. Aqueles olhos grandes, brilhantes, esperançosos e sofridos ficaram cravados em minha memória.
:: SÉRGIO RANALLI 6:58 AM [+] ::
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Fotos e Texto: Sergio Ranalli/Folha de Londrina
''Mange, mange, bon bagai'' (comida, comida, sangue bom). Passando as mãos sobre a barriga, com os olhos arregalados e famintos, as crianças cercam os estrangeiros implorando por comida. Lixo espalhado por todo lugar, esgoto correndo a céu aberto, trânsito para lá de caótico, construções abandonadas, centenas de pessoas nas ruas tentando conquistar alguns trocados, vendendo os mais diversos e bizarros produtos.
Bem-vindo ao Haiti. Assim é a recepção para quem chega ao país mais pobre das Américas. Se você chegar à noite, o susto pode ser ainda maior. Uma cidade de 2,5 milhões de habitantes pontuada por raros pontos de luz, provavelmente oriundos das casas mais opulentas, que contam com gerador de energia.
O Haiti ocupa o terço oeste da Ilha Hispaniola, a segunda maior das Grandes Antilhas, no Mar do Caribe. Já foi considerada a mais próspera colônia francesa no continente americano, riqueza conquistada com exportação de açúcar, cacau e café.
No entanto, a exploração do trabalho escravo fez seu povo forjado pelo sofrimento lutar até a conquista do título de primeira república negra do mundo. Porém, sua história de nação livre tem sido permeada por disputas internas, golpes de estado e violência.
Com 640 km de extensão entre seus pontos extremos, a ilha tem o formato semelhante à cabeça de um caimão, pequeno crocodilo abundante na região. Os 8,5 milhões de habitantes dividem território um pouco maior que Sergipe, o menor estado brasileiro.
Pobre em recursos minerais, com a agricultura, comércio e setor de transporte em estado letárgico, o Haiti está no topo de listas trágicas. São 80% de desempregados; o país tem o menor Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) das Américas; a Aids se espalha por aproximadamente 7% da população. Lá a fome é tamanha que parte da população come uma espécie de bolacha, chamada ''Té'', composta de argila, sal e manteiga.
Na região metropolitana de Porto Príncipe, município de Petionville, onde vive a elite local, a situação é diferente. A região é composta por hotéis de luxo, supermercados, restaurantes, mansões, carros novos e sofisticados, galeria de arte, vendedores de flores nas ruas, enfim um lugar que poderia ser confundido com algum bairro nobre de Curitiba. O choque é inevitável, uma dezena de quilômetros separam as bolachas de argila da requintada culinária francesa.
Essa grande desigualdade social deixa os haitianos céticos em relação ao futuro. Pierre Andregene, 57, tem curso superior, fala quatro idiomas e trabalha atualmente como intérprete do batalhão brasileiro.
''Meu povo, infelizmente, não tem conhecimento da democracia. O que significa democracia quando a gente não pode ir à escola, não pode comer um prato quente? Se o governo atual não fizer nada para aliviar a pobreza do povo, o Haiti de 2004 e 2005 vai retornar'', desabafa, com olhar melancólico.
A derrocada econômica o faz sentir saudade do regime déspota de François (Papadoc) e Jean Claude Duvalier (Babydoc). ''Em governos anteriores, o Haiti chegou a ser chamado de pérola das Antilhas, pela sua beleza e facilidade para viver. O ditador progressista (Papadoc), adotava o lema braço firme e mão amiga. Após a saída dos Duvalier, em 1986, os turistas foram embora e a violência e a pobreza explodiram.''
Quando questionado sobre as atrocidades cometidas pelo regime, Pierre muda de assunto. De 1964 até 1986, os Duvalier instauraram uma feroz e sangrenta ditadura, exterminando opositores e perseguindo a Igreja Católica.
A expressão sisuda de Andregene só se desfaz quando o assunto é a seleção brasileira. ''Quando o Brasil ganhou a Copa América você viu alguma comemoração nas ruas?'', indaga um militar que estava próximo da conversa. ''Aqui o país parou, tudo mundo foi para as ruas comemorar. Nunca tinha visto nada parecido no Brasil'', conta o mesmo soldado.
Andregene resume numa frase essa paixão: ''Quando tem jogo entre Brasil e Argentina, a gente aposta esposa, carro, casa e, se o Brasil perder, tem gente que se mata. Conheço pessoas que se mataram''.
Restauração
É nesse caldeirão de fome, esperança e violência que o Brasil está mergulhado desde 2004, quando foi instaurada pelo Conselho de Segurança das Nações Unidas, a missão da ONU para a estabilização no Haiti (Minustah), para restaurar a ordem. A medida foi tomada após um período de insurgência e a deposição do presidente Jean-Bertrand Aristide.
O comando das forças de paz cabe ao Brasil desde o começo, uma exceção nas missões da ONU, na qual a cada renovação há uma troca de comando. Já passaram pelo Haiti, oito contingentes de 1,2 mil militares brasileiros. Os militares são trocados de seis em seis meses.
Compõem o quadro das forças de paz 7.060 militares e 2.091 policiais civis oriundos de 18 países, entre eles a Argentina, Bolívia, Equador, Jordânia, Nepal, Filipinas e Siri Lanka.
Sangue bom
A população mantém uma boa relação com os militares brasileiros, é comum as pessoas se voltarem para os combatentes e gritarem ''bon bagay'' (sangue bom). Parte dessa boa relação foi conquistada por meio dos Atos Cívicos e Sociais (Aciso), uma característica das tropas brasileiras, na qual distribuem comida, roupas, material escolar e brinquedos, além de organizarem brincadeiras e jogos. Em datas especiais, como Natal e Páscoa, os militares fazem um rateio para comprar presentes e chocolates.
Porém na ONU, no começo da missão, havia quem não gostasse dessa iniciativa. Para essa linha de pensamento, o dever das forças de paz é prover exclusivamente a segurança e restabelecer a ordem. Mas vale ressaltar que os atos cívicos foram fundamentais como meio de aproximação e conquista de confiança, da população local.
No começo da missão, as tropas brasileiras travaram intensos combates com grupos armados. Não há dados oficiais sobre o número de presos e mortos. A pacificação do mais violento reduto de criminosos, a favela de Cité Soleil, a maior do Caribe, vem aos poucos sendo conquistada.
O marco da pacificação foi a ocupação, em 2006, da ''casa azul'', sobrado de três andares utilizado como abrigo e ponto de ataque por grupos armados. Após o combate, o imóvel foi ocupado e fortificado pelas forças de Paz brasileiras.
Protestos e ataques a tropas da ONU cessam no Haiti
A vida parece voltar a normal em Porto Príncipe, depois da onda de protestos violentos e ataques as tropas da ONU, a população se acalmou. Porém o cenário é desolador, vidros quebrados, lixo, barracas de feira destruídas, pedaços de carros, pedras e a 250 metros do Palácio Nacional um corpo foi encontrado no meio rua. Não há até o momento informações sobre as causas, nem identificação do morto. O comandante do batalhão brasileiro, coronel Paul Cruz determinou que as patrulhas voltassem a rotina normal, retirando os blindados das ruas.
A Companhia de Engenharia de Força de Paz Brasileira, BRAENGCOY, trabalhou durante todo dia de ontem na tentativa de desobstruir vias publicas, eliminar as barricadas e retirar e excesso de lixo.As ruas no entorno Palácio foram liberadas, as pessoas caminham normalmente pelas regiões mais afetadas. O fotojornalista canadense Logan Assadi, está a três ano como correspondente internacional no Haiti acredita que a onda de manifestações ira cessar. Pelo que conheço desse pais amanhã já deve estar tudo normal .
O comercio abriu parcialmente, porém quem precisou de combustível enfrentou problemas, visto que a maioria dos postos permanecem fechados e aqueles se arriscam a abrir cobram preços exorbitantes.
Os militares estão preparando a logística de recebimento e distribuição dos alimentos enviados pelo governo brasileiro. A população aguarda ansiosa a chegada da aeronave hoje as 20 horas, horário de Brasília. São 14 toneladas de feijão, açúcar e óleo. (10/04/2008)
Pedradas, pneus queimando e barricadas feitas com pedaços de carros, pedras e madeira estão espalhadas pela capital do Haiti. Agencias bancarias foram apedrejados e o comercio esta fechado. "É normal essa manifestação, pois o povo não pode viver dessa forma. Para o povo o governo não existe" , desabafa o hatiano Pierre Andregene, 57, interprete do batalhão brasileiro. Para ele as lideranças estão mobilizando a população para uma manifestação ainda maior e mais violenta daqui quatro dias.
Situação parece se deteriorar a cada minuto, manifestantes começam a alvejar com pedras os militares da forcas de paz. O transporte dos jornalistas brasileiros, que estão acompanhando uma comitiva com oficiais generais do Exercito, esta sendo realizado somente em blindados (Urutus). Hoje no percurso de volta do Palácio Nacional o veiculo foi atingido por pedras diversas vezes, tendo que vencer barreiras de fogo, pedras e restos de carros. Anteontem um fuzileiro naval brasileiro foi atingido por uma pedra. Desde o inicio das manifestações no Haiti dez civis morreram, informações de fontes não oficiais.
Combustível e alimentos tem subido em média 50% por semana, segundo fontes não oficiais. A população reclama que os donos de postos alegam desabastecimento para justificar os aumentos, já a população não acredita nesse argumento. Para provar que nos tanques dos postos há combustível, tentaram queimar uma bomba de gasolina no bairro de Canape Vert, na região oeste de Porto Príncipe, próximo da residência do presidente René Preval.
Os preços alcançam um patamar irreal, cinco quilos de feijão estão custando 200 Gourdes ( 12 reais), um galão de óleo com 3,5 litros está custando 350 Gourdes (18 reais), um galão de gasolina não sai por menos de 250 Gourdes (15 reais). O Haiti é o pais mais pobre das Américas, tem em média 80% de desempregados e mais de 50% da população é analfabeta. Populares entrevistados pelas rádios locais são favoráveis a continuidade dos protestos. A falta de iniciativa do presidente haitiano revolta a população. Buscando amenizar a situação, o governo brasileiro anunciou a envio de 14 toneladas de alimentos até sexta-feira.
As tropas de paz brasileiras continuam mobilizadas. Mantem um perímetro de segurança de 200 metros do Palácio Nacional, alem garantir a segurança da população, estão tentando debelar manifestações e fazendo patrulhas ostensivas na busca de restabelecer a ordem. O trabalho dos militares é intenso e não há previsão para a situação se normalizar. A nossa resistência em trabalhar intensamente é muito grande , garante o coronel Paul Cruz.
Liberté, Liberté eram os gritos de ordem da população nas cercanias do Palácio Nacional em Porto Príncipe, capital do Haiti. As tropas brasileiras chegaram três minutos antes que os manifestantes conseguissem derrubar os portões. ''Seria um 11 de setembro se população invadisse o Palácio'', disse o Comandante do Batalhão Brasileiro de Infantaria de Força de Paz, coronel Paul Cruz, referindo-se à gravidade da situação.
Desde a última sexta-feira, dia 5, a tensão começou se espalhar pelo Haiti, com protestos no sul do país, em Les Cayes, nos quais tropas uruguaias e o escritório da Minustah foram atacadas. Os protestos são motivados pelo aumento abusivo dos preços de gêneros alimentícios e o descontentamento com o governo do presidente René Preval.
Anteontem, a insatisfação tomou conta de Porto Príncipe e milhares de pessoas saíram as ruas. Ontem, a situação se agravou. Cerca de 10 mil pessoas marcharam em direção ao Palácio Nacional. O Force Comander da Minustah, general Santos Cruz, ordenou intervenção imediata das Forças de Paz Brasileiras, que conseguiram controlar a situação, impedindo uma tragédia já que o presidente René Preval estava no Palácio. Segundo informação do coronel Paul Cruz, Preval permanece no local.
Conforme o oficial de Relações Públicas, tenente coronel Melo, as manifestações são as mais hostis desde 2004 . A violência dos populares, alguns portando armas de fogo, fez com que a forças da ONU utilizassem granadas de efeito moral e tiros com armas não letais. Até o momento nenhuma baixa foi registrada entre os militares, entre os civis há informações, de fontes não-oficiais, de um morto. Quatrocentos militares, todos os blindados (urutus) do batalhão brasileiro, ao todo 14, dezenas de veículos foram mobilizados.
Aspectos políticos, sociais, econômicos, militares e de segurança, colocaram recentemente o Haiti como o sexto país mais instável do mundo, segundo relatório da revista britânica ''Jane's Information Group''.