O barulho de milhões de estômagos roncando de fome é imperceptível, a pele e osso, abafam essa dor. A escassez mundial de alimentos e por conseqüência a explosão no valor das commodities, fez o mundo parar, pensar e concluir o obvio, há fome e ela vai aumentar.
Nada pode ser mais sincero do que o olhar de uma criança. São janelas abertas que jogam o espectador num mundo de sonhos. Nem mesmo a brutal realidade vivida por esses pequenos apaga o brilho ou a esperança. Em toda viagem, deixamos pelos caminhos um pouco de nós e levamos um bocado do lugar desconhecido. O que trago do Haiti não pesa, não ocupa as mãos, não toma lugar nas malas, nem ao menos preocupa os agentes da Receita que fiscalizam a chegada dos vôos internacionais. Guardo na minha mente o olhar de cada criança que vi pelas ruas de Porto Príncipe. Aqueles olhos grandes, brilhantes, esperançosos e sofridos ficaram cravados em minha memória.
:: SÉRGIO RANALLI 6:58 AM [+] ::
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Fotos e Texto: Sergio Ranalli/Folha de Londrina
''Mange, mange, bon bagai'' (comida, comida, sangue bom). Passando as mãos sobre a barriga, com os olhos arregalados e famintos, as crianças cercam os estrangeiros implorando por comida. Lixo espalhado por todo lugar, esgoto correndo a céu aberto, trânsito para lá de caótico, construções abandonadas, centenas de pessoas nas ruas tentando conquistar alguns trocados, vendendo os mais diversos e bizarros produtos.
Bem-vindo ao Haiti. Assim é a recepção para quem chega ao país mais pobre das Américas. Se você chegar à noite, o susto pode ser ainda maior. Uma cidade de 2,5 milhões de habitantes pontuada por raros pontos de luz, provavelmente oriundos das casas mais opulentas, que contam com gerador de energia.
O Haiti ocupa o terço oeste da Ilha Hispaniola, a segunda maior das Grandes Antilhas, no Mar do Caribe. Já foi considerada a mais próspera colônia francesa no continente americano, riqueza conquistada com exportação de açúcar, cacau e café.
No entanto, a exploração do trabalho escravo fez seu povo forjado pelo sofrimento lutar até a conquista do título de primeira república negra do mundo. Porém, sua história de nação livre tem sido permeada por disputas internas, golpes de estado e violência.
Com 640 km de extensão entre seus pontos extremos, a ilha tem o formato semelhante à cabeça de um caimão, pequeno crocodilo abundante na região. Os 8,5 milhões de habitantes dividem território um pouco maior que Sergipe, o menor estado brasileiro.
Pobre em recursos minerais, com a agricultura, comércio e setor de transporte em estado letárgico, o Haiti está no topo de listas trágicas. São 80% de desempregados; o país tem o menor Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) das Américas; a Aids se espalha por aproximadamente 7% da população. Lá a fome é tamanha que parte da população come uma espécie de bolacha, chamada ''Té'', composta de argila, sal e manteiga.
Na região metropolitana de Porto Príncipe, município de Petionville, onde vive a elite local, a situação é diferente. A região é composta por hotéis de luxo, supermercados, restaurantes, mansões, carros novos e sofisticados, galeria de arte, vendedores de flores nas ruas, enfim um lugar que poderia ser confundido com algum bairro nobre de Curitiba. O choque é inevitável, uma dezena de quilômetros separam as bolachas de argila da requintada culinária francesa.
Essa grande desigualdade social deixa os haitianos céticos em relação ao futuro. Pierre Andregene, 57, tem curso superior, fala quatro idiomas e trabalha atualmente como intérprete do batalhão brasileiro.
''Meu povo, infelizmente, não tem conhecimento da democracia. O que significa democracia quando a gente não pode ir à escola, não pode comer um prato quente? Se o governo atual não fizer nada para aliviar a pobreza do povo, o Haiti de 2004 e 2005 vai retornar'', desabafa, com olhar melancólico.
A derrocada econômica o faz sentir saudade do regime déspota de François (Papadoc) e Jean Claude Duvalier (Babydoc). ''Em governos anteriores, o Haiti chegou a ser chamado de pérola das Antilhas, pela sua beleza e facilidade para viver. O ditador progressista (Papadoc), adotava o lema braço firme e mão amiga. Após a saída dos Duvalier, em 1986, os turistas foram embora e a violência e a pobreza explodiram.''
Quando questionado sobre as atrocidades cometidas pelo regime, Pierre muda de assunto. De 1964 até 1986, os Duvalier instauraram uma feroz e sangrenta ditadura, exterminando opositores e perseguindo a Igreja Católica.
A expressão sisuda de Andregene só se desfaz quando o assunto é a seleção brasileira. ''Quando o Brasil ganhou a Copa América você viu alguma comemoração nas ruas?'', indaga um militar que estava próximo da conversa. ''Aqui o país parou, tudo mundo foi para as ruas comemorar. Nunca tinha visto nada parecido no Brasil'', conta o mesmo soldado.
Andregene resume numa frase essa paixão: ''Quando tem jogo entre Brasil e Argentina, a gente aposta esposa, carro, casa e, se o Brasil perder, tem gente que se mata. Conheço pessoas que se mataram''.
Restauração
É nesse caldeirão de fome, esperança e violência que o Brasil está mergulhado desde 2004, quando foi instaurada pelo Conselho de Segurança das Nações Unidas, a missão da ONU para a estabilização no Haiti (Minustah), para restaurar a ordem. A medida foi tomada após um período de insurgência e a deposição do presidente Jean-Bertrand Aristide.
O comando das forças de paz cabe ao Brasil desde o começo, uma exceção nas missões da ONU, na qual a cada renovação há uma troca de comando. Já passaram pelo Haiti, oito contingentes de 1,2 mil militares brasileiros. Os militares são trocados de seis em seis meses.
Compõem o quadro das forças de paz 7.060 militares e 2.091 policiais civis oriundos de 18 países, entre eles a Argentina, Bolívia, Equador, Jordânia, Nepal, Filipinas e Siri Lanka.
Sangue bom
A população mantém uma boa relação com os militares brasileiros, é comum as pessoas se voltarem para os combatentes e gritarem ''bon bagay'' (sangue bom). Parte dessa boa relação foi conquistada por meio dos Atos Cívicos e Sociais (Aciso), uma característica das tropas brasileiras, na qual distribuem comida, roupas, material escolar e brinquedos, além de organizarem brincadeiras e jogos. Em datas especiais, como Natal e Páscoa, os militares fazem um rateio para comprar presentes e chocolates.
Porém na ONU, no começo da missão, havia quem não gostasse dessa iniciativa. Para essa linha de pensamento, o dever das forças de paz é prover exclusivamente a segurança e restabelecer a ordem. Mas vale ressaltar que os atos cívicos foram fundamentais como meio de aproximação e conquista de confiança, da população local.
No começo da missão, as tropas brasileiras travaram intensos combates com grupos armados. Não há dados oficiais sobre o número de presos e mortos. A pacificação do mais violento reduto de criminosos, a favela de Cité Soleil, a maior do Caribe, vem aos poucos sendo conquistada.
O marco da pacificação foi a ocupação, em 2006, da ''casa azul'', sobrado de três andares utilizado como abrigo e ponto de ataque por grupos armados. Após o combate, o imóvel foi ocupado e fortificado pelas forças de Paz brasileiras.
Protestos e ataques a tropas da ONU cessam no Haiti
A vida parece voltar a normal em Porto Príncipe, depois da onda de protestos violentos e ataques as tropas da ONU, a população se acalmou. Porém o cenário é desolador, vidros quebrados, lixo, barracas de feira destruídas, pedaços de carros, pedras e a 250 metros do Palácio Nacional um corpo foi encontrado no meio rua. Não há até o momento informações sobre as causas, nem identificação do morto. O comandante do batalhão brasileiro, coronel Paul Cruz determinou que as patrulhas voltassem a rotina normal, retirando os blindados das ruas.
A Companhia de Engenharia de Força de Paz Brasileira, BRAENGCOY, trabalhou durante todo dia de ontem na tentativa de desobstruir vias publicas, eliminar as barricadas e retirar e excesso de lixo.As ruas no entorno Palácio foram liberadas, as pessoas caminham normalmente pelas regiões mais afetadas. O fotojornalista canadense Logan Assadi, está a três ano como correspondente internacional no Haiti acredita que a onda de manifestações ira cessar. Pelo que conheço desse pais amanhã já deve estar tudo normal .
O comercio abriu parcialmente, porém quem precisou de combustível enfrentou problemas, visto que a maioria dos postos permanecem fechados e aqueles se arriscam a abrir cobram preços exorbitantes.
Os militares estão preparando a logística de recebimento e distribuição dos alimentos enviados pelo governo brasileiro. A população aguarda ansiosa a chegada da aeronave hoje as 20 horas, horário de Brasília. São 14 toneladas de feijão, açúcar e óleo. (10/04/2008)
Pedradas, pneus queimando e barricadas feitas com pedaços de carros, pedras e madeira estão espalhadas pela capital do Haiti. Agencias bancarias foram apedrejados e o comercio esta fechado. "É normal essa manifestação, pois o povo não pode viver dessa forma. Para o povo o governo não existe" , desabafa o hatiano Pierre Andregene, 57, interprete do batalhão brasileiro. Para ele as lideranças estão mobilizando a população para uma manifestação ainda maior e mais violenta daqui quatro dias.
Situação parece se deteriorar a cada minuto, manifestantes começam a alvejar com pedras os militares da forcas de paz. O transporte dos jornalistas brasileiros, que estão acompanhando uma comitiva com oficiais generais do Exercito, esta sendo realizado somente em blindados (Urutus). Hoje no percurso de volta do Palácio Nacional o veiculo foi atingido por pedras diversas vezes, tendo que vencer barreiras de fogo, pedras e restos de carros. Anteontem um fuzileiro naval brasileiro foi atingido por uma pedra. Desde o inicio das manifestações no Haiti dez civis morreram, informações de fontes não oficiais.
Combustível e alimentos tem subido em média 50% por semana, segundo fontes não oficiais. A população reclama que os donos de postos alegam desabastecimento para justificar os aumentos, já a população não acredita nesse argumento. Para provar que nos tanques dos postos há combustível, tentaram queimar uma bomba de gasolina no bairro de Canape Vert, na região oeste de Porto Príncipe, próximo da residência do presidente René Preval.
Os preços alcançam um patamar irreal, cinco quilos de feijão estão custando 200 Gourdes ( 12 reais), um galão de óleo com 3,5 litros está custando 350 Gourdes (18 reais), um galão de gasolina não sai por menos de 250 Gourdes (15 reais). O Haiti é o pais mais pobre das Américas, tem em média 80% de desempregados e mais de 50% da população é analfabeta. Populares entrevistados pelas rádios locais são favoráveis a continuidade dos protestos. A falta de iniciativa do presidente haitiano revolta a população. Buscando amenizar a situação, o governo brasileiro anunciou a envio de 14 toneladas de alimentos até sexta-feira.
As tropas de paz brasileiras continuam mobilizadas. Mantem um perímetro de segurança de 200 metros do Palácio Nacional, alem garantir a segurança da população, estão tentando debelar manifestações e fazendo patrulhas ostensivas na busca de restabelecer a ordem. O trabalho dos militares é intenso e não há previsão para a situação se normalizar. A nossa resistência em trabalhar intensamente é muito grande , garante o coronel Paul Cruz.
Liberté, Liberté eram os gritos de ordem da população nas cercanias do Palácio Nacional em Porto Príncipe, capital do Haiti. As tropas brasileiras chegaram três minutos antes que os manifestantes conseguissem derrubar os portões. ''Seria um 11 de setembro se população invadisse o Palácio'', disse o Comandante do Batalhão Brasileiro de Infantaria de Força de Paz, coronel Paul Cruz, referindo-se à gravidade da situação.
Desde a última sexta-feira, dia 5, a tensão começou se espalhar pelo Haiti, com protestos no sul do país, em Les Cayes, nos quais tropas uruguaias e o escritório da Minustah foram atacadas. Os protestos são motivados pelo aumento abusivo dos preços de gêneros alimentícios e o descontentamento com o governo do presidente René Preval.
Anteontem, a insatisfação tomou conta de Porto Príncipe e milhares de pessoas saíram as ruas. Ontem, a situação se agravou. Cerca de 10 mil pessoas marcharam em direção ao Palácio Nacional. O Force Comander da Minustah, general Santos Cruz, ordenou intervenção imediata das Forças de Paz Brasileiras, que conseguiram controlar a situação, impedindo uma tragédia já que o presidente René Preval estava no Palácio. Segundo informação do coronel Paul Cruz, Preval permanece no local.
Conforme o oficial de Relações Públicas, tenente coronel Melo, as manifestações são as mais hostis desde 2004 . A violência dos populares, alguns portando armas de fogo, fez com que a forças da ONU utilizassem granadas de efeito moral e tiros com armas não letais. Até o momento nenhuma baixa foi registrada entre os militares, entre os civis há informações, de fontes não-oficiais, de um morto. Quatrocentos militares, todos os blindados (urutus) do batalhão brasileiro, ao todo 14, dezenas de veículos foram mobilizados.
Aspectos políticos, sociais, econômicos, militares e de segurança, colocaram recentemente o Haiti como o sexto país mais instável do mundo, segundo relatório da revista britânica ''Jane's Information Group''.
Nunca fui de guardar datas. Tento lembrar o dia em que decidi me tornar fotografo, não consigo. Tento achar algum bilhete, recibo de revelação, nota fiscal de câmera, todo esforço é em vão.
Não sei o que me levou a trilhar esse caminho, foi uma escolha repentina e definitiva, como um disparo de obturador. Não fiz outra coisa da minha vida nesses dez anos que não fosse ligada ao mundo das imagens.
Lembro, com saudades, quando comprei um ampliador p&b, as bacias para químicos, termômetros e papeis. Saia de casa com dois ou três filmes p&b, sem rumo. Um turbilhão de idéias, desejos e sonhos se condensavam em forma de uma terrível, mas prazerosa, ansiedade. Em cada fotograma, um alivio. Minha câmera sempre foi uma tesoura e a realidade um grande pôster ilustrado.